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O que importa sobre currículos

 

Por Sueli Aznar

 

Na Eleggere, quando o consultor recebe um profissional para o programa de transição de carreira, antes de mais nada procuramos ouvi-lo, sentir a primeira impressão, entender como ele vê a própria carreira e o que prioriza no momento em que apresenta sua experiência.  É possível, assim, espelhar essas impressões, explorar mais sua história e fazê-lo ouvir-se. A elaboração ou revisão do currículo, assim como as outras formas de comunicação da experiência, é resultado dessa reflexão e será alvo da nossa atenção, assim que ele próprio identificar como pretende dar continuidade à sua trajetória profissional.

 

Finalmente, procuramos sensibilizá-lo sobre a oportunidade que uma transição de carreira oferece para quem deseja fazer escolhas e assumir a direção da própria carreira. Não é o currículo ou as orientações sobre divulgação da experiência e participação em processos seletivos que mais importa, mas sim o profissional ser capaz de atribuir sentido à carreira e de gerenciá-la a qualquer tempo.  Falar sobre isso deixa a conversa fica mais interessante para o consultor e o profissional e facilita o aprofundamento do trabalho.

Mas há casos em que o profissional diz ter interesse apenas em uma revisão de currículo rápida, na preparação para participação em processos seletivos e ponto final. Bem, cada caso é um caso e esse senso de urgência é até compreensível, mas consideramos essa forma de abordagem rasa para um processo que pode ser muito rico.

 

Cada vez mais as empresas estão atentas e procuram evitar candidatos ‘maquiados’, com respostas prontas e currículos ‘by the book’. Empresas como Aple, IBM, Google, Bank of America, Hilton, Starbucks, para citar algumas conhecidas, já decidiram eliminar o currículo de seus processos seletivos. A iniciativa surge como resposta às críticas que sempre se fizeram ao documento: afinal, por que não prescindir de um material considerado manipulável, nem sempre honesto em suas informações, padronizado e... chato?

 

Pode ser que a completa extinção dos currículos demore um pouco, ou que não nem ocorra, já que nem todas as empresas aderem às inovações tão rápido quanto as pioneiras citadas. Para acelerar o processo startups de tecnologia estão lançando aplicativos que usam inteligência artificial para pesquisar perfis e cruzar os requisitos das vagas com uma infinidade de dados disponíveis de potenciais candidatos e logo mais entrarão em cena os entrevistadores cibernéticos capazes de identificar a veracidade das informações por meio da captação de sinais de imagem e voz dos entrevistados.

 

Mas a questão continuará sendo a mesma, porque toda informação captada em qualquer tipo de mídia e até mesmo as que são obtidas por meio de eventos de seleção, testes, jogos e entrevistas buscam identificar a narrativa de carreira do profissional.

 

E essa narrativa se constrói quando ele toma consciência de seu propósito, identifica e apropria-se de seu repertório de competências, adquire visão sobre o ambiente de carreira e, assim,  torna-se capaz de atribuir sentido à sua trajetória e manifestá-lo de modo coerente em qualquer situação, inclusive por meio do velho e bom currículo, se lhe for solicitado.

 

 

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Procurando emprego? Prepare-se para ser entrevistado pela Vera.

 

Por Sueli Aznar 

 

O sábio Chuang-tzu, que viveu no século IV a.C. contava, em uma de suas parábolas, que um velho jardineiro, que fazia um árduo trabalho braçal, foi interpelado por um jovem que o aconselhou a usar uma alavanca.O velho, então respondeu:

"aquele que usa máquinas no seu trabalho faz o seu trabalho como máquina. Aquele que faz o seu trabalho como máquina desenvolve o seu coração como máquina e aquele que carrega o coração de máquina no seu peito perde a sua simplicidade. Aquele que perdeu a sua simplicidade torna-se inseguro nas lutas de sua alma".

 

Parece ser uma boa citação para os tempos atuais, que nos requisitam muito equilíbrio no uso das facilidades do nosso século. A propósito, você já conhece a Vera?

 

A robô Vera é uma criação de uma startup russa, que vem sendo usada por multinacionais de vários segmentos como o gigante sueco de mobiliário IKEA, a multinacional de cosméticos L'Oreal ou Pepsi.

 

 

Texto de Cátia Mateus 

Radio Alpha.net

 

"Poucos consultores de recrutamento conseguirão (ou poderão ambicionar) fazer num mês de trabalho o que Vera faz num dia: 1500 entrevistas a candidatos, que culminam numa shortlist de potenciais contratações a apresentar às empresas.

 

Para o comum dos recrutadores isto poderia levar meses. É essa a vantagem da máquina sobre o homem, a capacidade de analisar a uma velocidade recorde quantidades massivas de dados e organizá-las de modo a que façam sentido e tenham uma utilidade prática. E é esse o trunfo de Vera. Resta saber se será suficiente para revolucionar o sector do recrutamento.

 

Mas quem é Vera, afinal? Vera é o robô-recrutador desenvolvido por uma startup russa, em 2017, que no último ano tem ajudado mais de 200 empresas – entre elas os gigantes Ikea, L’Oreal e PepsiCo, Microsoft, Burger King e Auchan – a preencher as suas vagas com os candidatos certos (sim, são humanos!). E não perca tempo a questionar se é possível ser entrevistado por um robô num processo de recrutamento. É, já está a acontecer e a questão certa é quando lhe vai tocar a si e se está preparado para isso. Mas lá iremos. Primeiro deixe-me apresentar-lhe Vera. Vai certamente cruzar-se com ela, ou com outro robô semelhante, a breve prazo.

 

Vera está formatada (no sentido literal do termo) para ajudar as empresas a encontrar o candidato certo para uma determinada função, com a maior rapidez possível e com uma margem de erro mínima. E isto implica percorrer todas as etapas do processo desde a identificação do candidato à aferição do seu interesse na função, até à realização da entrevista.

 

E para os candidatos (que tanto se queixam da ausência de resposta de grande parte dos recrutadores) até tem um ponto a favor: Vera dá feedback regular sobre a evolução do processo de recrutamento. Ou seja, a resposta – seja ela sim ou não – está sempre garantida.

 

Na génese de Vera está um software de inteligência artificial que utiliza tecnologia machine learning (que dá ao robô a capacidade de aperfeiçoar as suas capacidades de conversação com a experiência) e a visão de Vladimir Sveshnikov e Alexander Uraksin, dois ex-recrutadores que quiseram criar “a Uber do recrutamento”. Mas aqui “não se pedem carros, pede-se talento”, explicavam os fundadores numa entrevista à Blooomberg. Vera combina a tecnologia de reconhecimento de voz que já conhecíamos de assistentes virtuais como Siri (Apple) ou Alexa (Amazon), com o conhecimento da Wikipedia e a informação de anúncios de emprego disponíveis em plataformas como CareerBuilder, Avito, Superjob e outras especificas das empresas.

 

E por esta altura já suspira de alívio ao pensar “ok, mas isto não acontece em Portugal!”, verdade? Estará certo, mas só em parte – e pode não ser por muito tempo. É que o software pode ser aplicado em Portugal, basta apenas requerê-lo aos fundadores, e o mercado de trabalho é cada vez mais global. Ou seja, se for candidato a uma função internacional numa das 200 empresas que já utilizam este software, o primeiro telefonema que vai receber para iniciar o processo de seleção será certamente o de Vera. De resto, a empresa está já a desenvolver projetos-piloto com várias empresas na Europa.

 

MAIS DE 50 MIL ENTREVISTAS DIÁRIAS

 

A robô Vera está a ser maioritariamente utilizada em empresas russas, mas está preparada para abordar outros mercados. Fala russo e inglês, a diferentes velocidades, e pode ter voz feminina ou masculina, consoante as preferências do empregador. A partir de uma descrição da função e de um conjunto de perguntas formatadas para os objetivos da empresa, Vera inicia o processo de pesquisa e revisão de currículos e cartas de apresentação de potenciais candidatos, nas várias plataformas de recrutamento.

 

Sempre que identifique uma correspondência entre determinado currículo e a vaga em questão, Vera vai contactar o profissional e aferir a sua disponibilidade para ser candidato. Caso esta se confirme, a robô realizará uma primeira entrevista telefónica. Numa fase final da seleção, Vera realiza uma derradeira entrevista, desta feita em formato vídeo, com os candidatos que integram a lista final a apresentar ao empregador.

 

“Atualmente temos 200 empresas a utilizar Vera, o que significa que o software está a conduzir cerca de 50 mil entrevistas por dia”, explicam os fundadores num balanço do projeto, acrescentando que “o software identifica os profissionais com os melhores currículos, conduz as entrevistas e seleciona para as empresas um ranking com os melhores candidatos dez vezes mais rápido do que um humano”.

 

O software que incorpora permite ao robô Vera responder de forma correta aos candidatos em 82% das interações. O desafio atual dos fundadores é elevar esta fasquia para os 85% nos próximos meses, ao mesmo tempo que “ensinam” Vera a identificar sinais de raiva, prazer e desilusão. Uma evolução que pode ser determinante na aceitação dos humanos a esta nova forma de recrutar talento.

 

VANTAGENS E DESVANTAGENS

 

Vera não é um caso único de aplicação da inteligência artificial no recrutamento, mas tal como todos os outros sistemas tem como trunfo mais imediato para as empresas a redução do tempo e dos custos associados ao processo. É basicamente impossível um consultor de recrutamento humano realizar 1500 entrevistas de emprego num dia. Uma primeira conclusão possível é de que o segredo de Vera é exatamente esse, não ser humana. Mas para os especialistas, essa pode também ser uma limitação e um sério entrave à massificação da aplicação da inteligência artificial ao sector do recrutamento.

 

Num artigo de opinião publicado este sábado na edição semanal do Expresso, Amândio da Fonseca, administrador do Grupo Egor, defendia que “apesar dos desenvolvimentos do software e dos algoritmos de aprendizagem, está ainda por descobrir uma aplicação informática que consiga persuadir uma pessoa a mudar de emprego, aconselhá-la nas opções de carreira, fazer a ponte no processo de negociação entre a empresa e o candidato”.

 

Para o especialista, as máquinas estão longe de poder substituir a intervenção humana quando se trata de identificar talento. “As novas tecnologias obrigaram as principais empresas do setor a dotarem-se de meios tecnológicos avançados e os profissionais de recrutamento a assumirem um papel mais interveniente na facilitação da mobilidade dos candidatos e mais preparados para resolver equações humanas que, pela complexidade das motivações, sentimentos e emoções que uma mudança na vida pessoal e profissional arrasta, as máquinas não conseguem resolver”.

 

E num processo de recrutamento, garante o especialista, há muita coisa que a tecnologia não consegue resolver. Na verdade, poucos humanos estarão preparados para ser entrevistados, sem embaraço nem constrangimento, por uma máquina. Já se imaginou a ser inquirido por um robô sobre o seu percurso de carreira e ambições profissionais e ter uma máquina a analisar e avaliar o seu discurso, vocabulário e tom de voz, sabendo que isso pode ditar o sim ou não na conquista de um emprego?

 

E estará a máquina à altura de conseguir contextualizar tudo isto e enquadrá-lo no ambiente em que decorre a entrevista, equacionando fatores como a emoção do candidato, o seu estado de espírito ou a inibição própria de quem não está à vontade em ser entrevistado por uma máquina? Por outras palavras, conseguirá um robô fazer uma análise “humana” e identificar um bom candidato mas que é atraiçoado pelo constrangimento de uma entrevista nestes moldes?

 

A resposta parece óbvia e faz tremer a maioria dos candidatos. Mas a verdade é que, com todas as limitações que ainda lhe reconhecemos, a inteligência artificial está a ganhar cada vez mais adeptos entre as empresas que procuram identificar talento de forma rápida e sem grandes custos associados. A si que procura emprego, não lhe resta outro caminho senão aprender a comunicar com robôs. Vai precisar, num futuro que não está assim tão distante."

 

https://radioalfa.net/vera-o-robo-que-contrata-humanos-procura-emprego-esta-preparado-para-falar-com-um-robo/

 

 

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Na Copa como na Vida

 

Por Sueli Aznar

 

Estamos vivendo um ano no qual, além das previsíveis paradas para o Carnaval, Copa do Mundo de Futebol e eleições, ainda estamos encarando intervalos recheados de más notícias e greves. Isso tudo cria um impasse, mantém as empresas na retranca e faz de 2018 um ano complicado, especialmente para aqueles que perderam seus empregos e estão batalhando pela oportunidade de serem escalados para um próximo jogo.

 

É mesmo muito difícil ouvir um não atrás do outro em processos seletivos, apesar de se ter talento. É como levar tombo e mais tombo no campo, e não conseguir jogar, embora se tenha preparado muito para mostrar um bom desempenho.

 

Compreensível a reclamação do candidato, que não obtém sequer uma resposta automática, depois de se aplicar a tantas vagas publicadas. As entrevistas canceladas; o tempo de espera na recepção; a falta de retorno das ligações que fez ao selecionador; o silêncio sobre o seu seguimento ou não no processo, após todas aquelas entrevistas; a vaga que era quase dele, mas que no fim foi cancelada... Enfim, é muita falta, chute na canela, empurrão, puxão de camisa e pênalti que o Juiz não viu. Sem contar a pressão da torcida, querendo saber se ele deu de goleada naquela entrevista com o RH e se vai para final...

 

Pressão e competição são contingências do processo de transição. Nem tudo ocorre como se espera, há muitas variáveis que estão fora de controle, mesmo quando se é um craque.

 

Mas a pergunta é: diante do que a realidade oferece, que lugar o tal craque decide ocupar?  O da vítima chorosa e dramática, que reclama, inconformada, por uma justiça que não vem?  O da criança rancorosa e malcriada, que dá o troco trapaceando ou revidando no mesmo tom? Ou o do jogador leal, inteligente, criativo, que trabalha focado, não se intimida com os obstáculos e persiste na intenção de fazer o melhor jogo possível?

 

Em declaração recente, ouviu-se de um zagueiro o seguinte: - “Em todas as profissões, a gente sabe como é: quando você martela, martela e a bola passa beirando a trave e não entra, fica com o sentimento de que (o seu dia) não é hoje. Mas em nenhum momento deixamos de acreditar. Argumentar (sobre o pênalti que o Juiz não deu) não ia adiantar, faltavam poucos minutos, se fosse argumentar, ia levar isso para frente e de repente não daria tempo de fazer o gol.”  O zagueiro usava uma braçadeira indicando que era o Capitão.

 

Um outro jogador disse assim: -" O caminho é continuar acreditando, por mais que seja difícil. Independentemente dos resultados dos outros, a gente tem que fazer o nosso papel. Esse foi o que fez dois gols em dois jogos.

 

Pois é, na vida não dá para ser júnior... Se quer conquistar um emprego ou um campeonato, é preciso manter-se firme no propósito. E se algo o fizer cair, é como diz o samba antigo: “reconhece a queda e não desanima: levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”.